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Quero um livro sobre a minha obra: por onde começar

Um livro sobre a própria obra parece muitas vezes ao artista algo demasiado grande, caro e nebuloso — um projeto sedutor e, ao mesmo tempo, assustador. «Quem é que haveria de escrever sobre mim?», «O que se pode dizer sobre os meus trabalhos?», «Eu limito-me a pintar quadros, a criar joias, a fazer graffiti». A estas dúvidas somam-se receios bem práticos: um livro é complicado, demorado e caro, e falta a experiência de o fazer. Este desejo pode arder em lume brando durante anos sem se concretizar, embora já exista material suficiente para uma edição séria e substancial.

As obras prontas já não cabem no atelier, muitas estão em galerias e coleções privadas, há exposições e anos de trabalho atrás de si — mas como transformar tudo isto num relato coerente sobre si?

Um livro sobre um artista não começa pela escolha da gráfica, nem sequer pela seleção das reproduções. Primeiro é preciso perceber para quem e para quê ele é criado, o que exatamente deve dizer sobre si e sobre as suas obras.

Primeiro define-se a missão do livro

O livro pode servir para se apresentar a galeristas e colecionadores, para acompanhar uma exposição, para fixar uma determinada etapa da carreira artística ou para preservar o seu legado criativo. Da missão definida dependem o formato, a extensão e a estrutura da edição. Um álbum de apresentação constrói-se de maneira diferente de uma monografia; umas memórias biográficas ilustradas exigem uma abordagem diferente da de um catálogo de exposição individual.

Como nasce o conceito

O trabalho começa com uma conversa. Primeiro é preciso conhecermo-nos e criar uma relação de confiança — quase como numa conversa com um psicólogo. Envia-me as suas obras, e eu começo a perceber como se pode apresentar a sua criação. Depois estudo catálogos de exposições, publicações, críticas, cartas e outros materiais — online e em edições impressas, nos seus arquivos. Aos poucos, torna-se clara a lógica interna do seu percurso criativo: os temas constantes, as mudanças da linguagem artística, os encontros importantes, as viragens e os períodos.

Não avalio nem critico. Para mim, toda a criação é sagrada.

A minha tarefa como historiadora de arte é elevar-me acima da biografia do artista e ver a sua obra como um todo no espaço da história da arte. Vejo o trabalho de cada artista como parte de um sistema artístico mais amplo, ligado ao seu tempo, à tradição e aos processos gerais da cultura.

Não raro, graças a este olhar, o artista vê pela primeira vez o próprio percurso como um todo — noutro sistema de coordenadas, em que as obras isoladas se organizam numa história coerente. Isso pode reforçar a confiança no próprio caminho e ajudar a ver-se como parte de um processo artístico mais vasto.

Etapas do trabalho no livro

  1. Ideia. Definimos o objetivo, o público, a extensão prevista e o formato da edição.
  2. Recolha de materiais. Conversamos, envia-me os materiais (as suas obras, ligações para sites, documentos) e eu estudo-os.
  3. Estrutura. Definimos o conteúdo do livro e a proporção entre texto, reproduções, materiais biográficos e de referência.
  4. Texto. Escrevo o ensaio de história da arte, a biografia, os comentários, as descrições ou as legendas das obras.
  5. Sequência de imagens. Selecionamos as obras, construímos a ordem das imagens, preparamos as fotografias para a paginação.
  6. Edição. Depois de aprovado o manuscrito, seguem-se a revisão, o design, a paginação, a correção de cor e a preparação para impressão.

O que convém preparar de antemão

Não é obrigatório ter um arquivo totalmente organizado da sua obra. É útil ter fotografias das obras principais, informação sobre exposições, atividades e publicações, e uma biografia breve. Se os materiais estiverem guardados sem sistema, podem ser reunidos, verificados e ordenados já durante a preparação do livro.

Um livro sobre um artista não é um portefólio ampliado, mas um relato profissionalmente construído sobre a sua obra. Ajuda a apresentar o artista ao público, aos especialistas, às galerias e aos colecionadores, e torna-se parte do seu legado.

Quer um livro sobre a sua obra? Escreva-me — discutiremos a ideia, os materiais existentes e o formato possível da edição. Saiba mais sobre o trabalho com artistas na página «Para artistas».